terça-feira, 18 de março de 2008

Relato de uma residente em Dharamsala


Uma visão geral da situação tibetana dentro e fora do Tibete

16/03/2008


McLeod Ganj (o quarteirão tibetano em Dharamsala) está fervendo. Eu vivo a 200 metros do templo principal, o qual , nesses últimos dias , tem sido o maior foco para as protestos aqui. As ondas das emoções que variam de alegria, cantos e gritos de lamentos e 'slogans', que podem ser ouvidos do meu quarto. Na rua em frente ao templo uns quarenta tibetanos estão em greve de fome, esperamos, porém que não cheguem até a morte. Cem daqueles que planejavam marchar de Dharamsala a Lhasa, foram detidos antes que chegassem à fronteria do estado do Himachal Pradesh com o estado do Punjab. Eles estão sendo detidos por quatorze dias porque recusam de assinar um papel no qual eles juram que abandonarão a marcha.

Ontem - dia 16/03 - um grupo de duzentos sairam em marcha de Macleod Ganj para cercar a prisão onde seus companheiros estão detidos. Este grupo se transformou em uma multidão de mais de três mill dos tibetanos que vivem aqui. E até hoje mesmo muitos outros estão dispostos a fazer o mesmo. Todas as lojas, restaurantes e tudo aquilo que diz respeitos aos tibetanos estão fechadas. Em Delhi a poucos dias atrás uns cinqüenta protestantes também foram presos.

Eu há pouco vim do templo onde a Sua Santidade o Dalai Lama deu uma entrevista coletiva - jornalistas da BBC, CNN, de meios da Alemanha, Japão e outros pa
íses estavam presentes. Só aqueles jornalistas da imprensa puderam participar da coletiva. Tibete: Os chineses dizem que dez pessoas morreram. Mas a mídia noticiou uns trinta, a dois dias atrás. Ontem contavam oitenta corpos. Mas aqui as vozes que chegam dizem que são mais de cem. A tendência é só subir. O governo chinês pediu que os manifestantes se rendam antes da meia-noite de segunda-feira 17/03 - se eles desafiarem, ao invés do 'tratamento severo' receberão uma 'moderada' punição. Seríamos hipócritas em acreditar nisso. Os manifestantes sabem o que exatamente se espera. Mas não eles esperam render. Os chineses os bloquearam em um quarterão velho da cidade. Ainda não é claro como começou a violência. Relatórios de tibetanos em Lhasa, por celulares, dizem que as manifestações começaram pacificamente por alguns monjes mas foram reprimidas pelas forças chinesas com força brutal. Isto fez com que as manifestações aumentassem, envolvendo pessoas leigas e eventualmente algum tibetano, lançando pedras e queimando edifícios etc. Quase todas as imagens e notícias vêm de Lhasa, com lojas quebradas e queimando. Todavia isto parece ser mais uma tentativa, chinesa de retratar os tibetanos como agitadores e 'terroristas separadores.'

O que as novas imagens das notícias não mostram é a sua ação severa. Relatórios nos chegam através de celulares dos tibetanos na capital de Lhasa dizendo que grandes números de manifestantes ainda inconscientes devido a um tipo de gás lançado, foram levados nos caminhões dos exército para lugar ignorado. Outros relatórios contam de pessoas sendo mortas e seus corpos sendo jogados fora. Embora a atenção da mídia esteja concentrada em Lhasa, os tibetanos em todas as outras três regiões do Tibete (Utsang, Kham e Amdo), tambem fazem demonstrações com milhares de participantes em Tau, Kandze, Lithang, Labrang Tashikyil e Penpo. Em Amdo Ngawa até mesmo 12,000 pessoas se levantaram em demostração de protesto. Na Província de Gansu, os estudantes de uma universidade também se ergueram em manifestação. Em todos os lugares o exército chinês respondeu, a estas demonstrações pacíficas de forma brutal, matando um número de pessoas ainda não confirmado.

Tudo isso são só relatórios, o que realmente está acontecendo nesse momento em Lhasa e nas outras províncias do Tibet é muito dificil de ser efetivamente constatado. O Dalai Lama e o Governo chinês: O governo chinês diz que as demonstrações foram 'habilmente planejadas pelo Dalai e seu grupo exclusivo'. O Dalai Lama desmentiu tudo isso publicamente e temos toda razão para acreditar nele. Ele lamentou profundamente pelas perdas das vidas que estão ocorrendo não pode encorajar as ações que custem as vidas de outros seres. Por isso é inverossímil, dizer que as manifestações foram coordenadas por ele, como os chineses estão proclamando. É muito mais plausível, e de acordo com aquilo que eu conheço dos tibetanos, que eles tenham começado com demonstrações pacíficas espontâneas aproveitando essa oportunidade das Olimpíadas em Beijim, onde o mundo inteiro esta aí focalizado, para fazer a causa do Tibet se tornar em uma causa de interesse mundial, tais demonstrações ganharam impulso e geraram eventos semelhantes em outros lugares.

A intensidade que nós estamos vendo, é uma explosão de frustração retida por cinco décadas, um ressentimento por serem oprimidos por um regime que não dá liberdade de expressão, religião e cultura, e não o produto de um 'esquema do clã do Dalai.' Os tibetanos sentem entristecidos e com toda razão. As atrocidades que vem acontecendo a mais de 60 anos são muitas e variadas não reveladas aos olhos do mundo. Entretanto aqui não é o lugar para entrar em detalhes. Embora seja verdade que o Dalai Lama tenha se recusado a pedir que parassem as manifestações, não foi porque ele desejasse causar algum dano aos chineses ou encorajasse a violência. E sim por que nesses últimos dias ele recebeu telefonemas de Tibetanos suplicarando a ele que não lhes pedisse para suspender as suas manifestações. Os tibetanos querem exercitar os seus básicos direitos humanos de expressão. Durante anos o povo tibetano foi atormentado por um sentimento de inutilidade, de querer melhorar as condições na sua própria pátria sem o menor resultado. Agora, eles acham que têm uma oportunidade para fazer algo que poderia trazer a atenção do mundo à situação do Tibet. Qualquer que seja o resultado mesmo seja se unindo em uma marcha, a sensação de estar contribuindo pessoalmente com algo, dá esperança e coragem as pessoas. Considerando que não fazendo nada somos conduzidos à desesperança e a frustração. Se no caso o Dalai Lama pedir pedir aos tibetanos que parem com as manifestações , eles se sentiriam devastados, porque eles o respeitam acima de qualquer outra coisa e não querem contradizer os seus desejos expressos. Mas os tibetanos, e principalemente a nova geração, sente a necessidade de agir, e agir agora. Muitos tibetanos me disseram, "Como eu não posso simplesmente fazer nada enquando meus irmãos e irmãs estão no Tibet arriscando as suas próprias vidas pela nossa pátria? Nós temos uma responsabilidade para os apoiar, não só em pensamento, mas também em palavra e ação."

As demonstrações começaram no dia 10 de Março que é o 49º aniversário da insurreição falhada contra o chinês após o qual a Sua Santidade fugiu do Tibete para a Índia. É uma data que trás emoções dolorosas para os tibetanos. E eles sabem que o mundo está vendo a China na corrida até as Olimpíadas. Estes dois, o aniversário da rebelião e a chegada das Olimpíadas, proporcionaram às pessoas um catalisador. Por favor lembrem que o tibetanos não são hipócritas. Embora não se poderia esperar tal reação de povo nômade e comerciante, eles são politicamente astutos. Eles tiveram que sobreviver sob um regime comunista. E ainda, considerando que em outro lugar tal astúcia combinada ao egoísmo poderia ter conduzido à colaboração. Ao contrário em geral, os tibetanos resistiram à ideologia comunista chinesa e à sua propaganda. Eu atribuo isso à força de caráter e cultura desse povo. Embora quieto durante relativamente muito tempo, eles esperaram pacientemente o momento apropriado de agir. Esses são os fatos até onde se pode averiguar.

Quanto a minha opinião. Eu me senti devastada e com lágrimas nos olhos quando eu vi os primeiros relatórios na BBC. Enquanto os meus amigos (monges tibetanos) asseguraram que o que nós estamos vendo era bom. Apesar de ser um erro e queimar as lojas fosse algo que eles não devessem ter feito... eles fizeram, e os outros notarão... Eles estão frustrados pelo jeito em que a Comunidade Mundial até hoje não fez nada mais para garantir a paz e liberdade pessoal no Tibet. Eles querem a expressão do mundo e seu apoio. Os tibetanos acham (como eu também) que esta é uma hora crítica.

O Dalai Lama tem 73 anos. Com as Olimpíadas em Beijing, o mundo pode ter alguma influência sobre China. Pode ser um tipo de idealismo (eu não direi ingenuidade) esperar que, por uma vez, o mundo coloque suas preocupações humanitárias e éticas à frente do lado econômico. Se não agora, então quando? Eu não espero que a situação possa ser resolvida logo. Haverão incidentes relacionados às Olimpíadas. As Olimpíadas devem prosseguir, porque o mundo estará lá para testemunhar. Embora possa aparecer firme, O governo chinês, é frágil por essa razão que é obrigado a usar meios brutais e medo. Eles não têm nenhuma consideração pelos sentimentos e mentes das pessoas. O que aconteceu na Europa oriental é ligado ao que eventualmente pode acontecer na China. Ou seja, eu não estou predizendo a queda iminente do regime comunista chinês. Eu só pretendo insinuar que essa agitação é difundida e sentida profundamente. Não só no Tibet mas através de toda China. Vamos esperar que estas manifestações tragam frutos positivos, sejam para os tibetanos, para os chineses e para o mundo. Eu peço a vocês que leiam, assistam ou escutem o que a Sua Santidade o Dalai Lama diz. Ele é prático, sábio e acima de tudo compassivo. Ele não é nenhum estadista ordinário e a resposta dele seguramente será um testamento da originalidade do seu pensamento.

Beatriz Bispo – Dharamsala, India



Fonte: Blog Grupo de Apoio ao Tibete (Portugal)



Poste um
comentário e divida seu insight e suas considerações sobre o texto.

3 comentários:

Mariza Matheus disse...

Boa Noite Beatriz Bispo

Meu nome é Mariza e estava lendo na internet quando encontrei seu nome. Estou muito interessada em participar do encontro junto com N. S, Dalai Lama, que será realizada aí (em sua "nova" terra) no final de Setembro deste ano (2008). Gostaria de saber se, por acaso, vc teria uma informação que possa me ajudar (a quem devo procurar, agência...).
Desde já lhe agradeço.

Mariza

http://www.marizamc.net

Paulo Stekel/Danea Tage/Revista Horizonte disse...

Prezada Mariza,
Acredito que o ideal é vc enviar mensagem para o email grupodeapoioaotibete@gmail.com a fim de obter informações sobre os eventos com Dalai Lama em Portugal.

Tashi delek!

Mariza Matheus disse...

Vou fazer isso.
Obrigada :-)